quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lar, doce lar


Anoitecia. Perto do lago os sapos coaxavam, e alguns vagalumes passeavam no bosque. O vento fazia um som gostoso entre as folhagens.
Montado em cima do cavalo, um rapaz voltava para casa depois de um dia de trabalho. Chapéu, bota, camisa aberta de um charme desleixado. Não havia pressa naquele lugar.
Admirava a paisagem - os campos onde ficavam as plantações, o ribeirão lá embaixo, depois da ribanceira... as estrelas e a lua que estava cheia, de maneira que ele sequer notava a ausência de iluminação na estradinha, graças ao show no céu.
Cumprimentou um ou dois cumpadres no caminho, também voltavam para casa.
Chegando na porteira piscou os olhos, que se acostumavam com a luz que vinha lá da casa. Apeou do cavalo e foi abri-la. Conduziu o cavalo sem montá-lo, deveria estar até mais cansado do que ele. Deixou-o pastar livre.
O final do dia foi em silêncio, todos endurecidos pela labuta, em volta da mesa. Fazia calor perto do fogão à lenha. Comeram devagar, eita sabor bão o da comida de casa, sô.
Reuniram-se do lado de fora da casa, depois da mesa desfeita e arrumada para o café do dia seguinte, claro. Acordariam cedo para a missa, e sua mulher não gostava de fazer as coisas com pressa, muito menos se atrasar.
Lembrou-se de quando ela era sua menina, e se viam escondido do pai depois da missa. De como quase fugira com ela, e de como era feliz com ela e seus dois meninos, que saíram à cara do pai.
Puxou da viola uma moda de saudade, uma de amor, uma bem sertaneja, acompanhado pelos filhos. E aqueles olhos pelos quais se enamorara capengavam de sono mas eram acompanhados de um sorriso.
Os outros entraram, e ele acendeu um cigarro de palha. A brasa era mais um ponto de luz naquela noite. Finalmente relaxou, guardou a viola na sacola e foi lavar a cara pra não dormir cheirando tabaco.
Foram pousar. Deitou ao lado de sua mulher e mais do que nunca teve a certeza de que eram felizes, naquele aconchego de dormirem abraçadinhos.
Não havia lugar como sua casa, seu lar. Adormeceu com aquele sorriso leve no rosto. Amanhã era dia de agradecer a Deus por tudo aquilo...

ouvindo Victor e Léo - Deus e eu no sertão

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Dê seu pitaco